Como criar o hábito do diálogo com os filhos?
Por: Márcio JordanoUma das grandes maravilhas de ser
humano é o seu poder de dialogar, trocar idéias e experiências, compartilhar
emoções, negociar, discutir e ... amar.
Somos mais inteligentes do que falamos. Pois a fala é somente um dos meios de
comunicação entre dois seres pensantes. Os surdos e mudos têm a linguagem dos
sinais, regida pela LIBRAS, linguagem brasileira de sinais. Há especialistas em
leituras labiais e em linguagens extraverbais.
Um nenê já gesticula, solta sons, acena, bate palmas, mexe a cabeça, sorri,
fica sério, chora, resmunga antes mesmo de falar. É um fato universal, não
importa a cultura. Para mim, o pensamento precede as palavras.
Em geral o bebê já conversa com sua mãe com sons, vogais e poucas consoantes,
sem palavras formadas. Com 12 meses, já usa as primeiras quatro palavras. Com
21 meses, seu vocabulário já conta com 20 palavras; e eles entendem muito mais.
Se uma criança nascesse e não tivesse nenhum contato com humanos, como o herói
de aventuras Tarzan, o homem macaco criado por Burroughs, ou Mowgli, idealizado
por Rudyard Kipling, ela deixaria de desenvolver a área cerebral da fala e seus
respectivos correlatos cerebrais, alguns dos quais impossíveis de serem
recuperados totalmente posteriormente. É o que acontece com os sotaques das
pessoas que aprendem outras línguas após a puberdade.
Para falar, um nenê tem que pensar. Quanto mais cedo pensar, mais vai querer
falar, e quanto mais falar, mais vai ter que pensar. É por isso que um dos
meios de aclarar, organizar e amadurecer as idéias e desenvolver os pensamentos
é simplesmente falar o que estiver pensando. Não se fala uma idéia sem sentido,
mas pensar sem sentido é muito comum.
Um dos grandes motivos do esfriamento dos relacionamentos entre pais e filhos é
a falta de comunicação verbal entre eles, mesmo que estejam emitindo mensagens
extraverbais o tempo todo.
Quando um pai chega em casa, irritado, cansado, preferindo descansar em frente
da televisão, mesmo calado, ele está passando a mensagem de que não quer
ninguém por perto.
Quando uma mãe chega falando em casa, reclamando da bagunça, direto a preparar
algo para todos comerem, cobrando de tudo e de todos, ela já passou a mensagem
da sua posição e ninguém gosta de ficar por perto.
Assim, cada vez mais todos acabam ficando mais distantes uns dos outros, mesmo
que convivam numa mesma casa. O que deveria ser um happy hour vira uma tragic
hour.
Algumas dicas emergenciais para que o companheirismo volte ao lar:
· Todos, ao chegarem em suas casas, têm meia hora para fazer o que quiserem, desde que não incomodem outros presentes;
· É da responsabilidade de quem ficou em casa deixá-la em ordem: exigências crescem de acordo com a idade. Não é tarefa de mãe arrumar bagunças de ninguém;
· O jantar deveria ser o happy hour: Não está com fome? Peça que todos se sentem junto, mesmo assim, pois o que importa é a companhia, a conversa, o alimento da alma;
· Quem não jantar na hora, vai ficar sem comer até a manhã do dia seguinte. Ninguém morre de fome em casa que tem comida, mas o comer a qualquer hora estraga qualquer qualidade de vida;
· Jantar não é hora de cobranças, mas sim de contar "causos" interessantes, piadas, aventuras, dar feedbacks do que está fazendo, perguntar como andam os projetos de cada um, compartilhar lembranças e sonhos;
· Quem não dedica um tempo para conversar, jogar papo fora, orientar, aconselhar, fazer cobranças e espera que tudo aconteça, nunca terá este tempo. Ninguém fabrica tempo, cada um tem o seu. Já não há mais tanto tempo para realizar todos os desejos;
· Após o jantar ninguém sai, nem assiste TV, nem usa o computador, nem dorme. É hora de fazer as obrigações. Não pode dormir enquanto não terminar. Nada de "amanhã cedo eu faço". Sacrifícios destes mais fortaleceram que mataram filhos. Se forem dormir, os pais têm que acordá-los para terminar;
· Pais bonzinhos são "bobinhos", pois estão financiando a falta de formação e de educação (formação do futuro cidadão ético). Pais poupadores, que não impõem o cumprimento das obrigações dos filhos nem cobram bons resultados podem formar "príncipes esperadores" de heranças e de prêmios sem comprar bilhetes no lugar de terem filhos empreendedores.
Içami Tiba
Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 25 livros.Fonte: Uol educação
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